Pitoko é um cão golden. Não o tenho como dono, mas como pai. Ele é um filho e tem a mesma importância e direitos que qualquer outro membro da família. Pitoko lida bem com boa parte do meu comportamento, o que inclui o que falo e gesticulo. Em linguagem popular, poderia trocar o “lida bem” por “entender”. Ele me entende. De certo modo, também entendo os latidos e gestos dele. A relação de amor – gerada na minha assunção da paternidade dele e da sua vinda aos meus braços direto do desmame da mãe – amplia em muito as chances de se ter a seguinte situação: um ser galáctico qualquer que ficasse observando lá do espaço nós dois, em minha casa, e que não tivesse em seu planeta espécies diferentes e dominadas, como é nosso caso, não teria nenhuma dúvida em dizer que o Pitoko nasceu realmente da barriga da Fran, minha esposa, e que é um membro comum de uma família de terráqueos.
O convívio entre Pitoko e eu não é muito diferente daquele que se estabelece entre a mãe e o seu bebê, ambos humanos. O bebê chora a partir de fome, sede ou dores e a mãe o atende. Em pouco tempo ele diversifica o tom do choro a partir de feedbacks positivos e negativos. O choro que traz a mãe para o berço tende a ser reproduzido, o choro que não traz a mãe ou que a traz de mau humor tende a ser descartado ou, então, reproduzido no sentido de não trazer a mãe com urgência.
Esse mecanismo de interação entre a mãe e o bebê pode ficar tão sofisticado quanto o meu com o Pitoko. Um observador da situação pode, então, estabelecer uma tabela que exponha em detalhes os comportamentos da mãe em suas relações com os tipos de choro do bebê. Essa tabela, uma vez reescrita em moldes populares, para ser vendida no comércio, pode aparecer como um tipo de dicionário de tradução entre “a fala do bebê”, isto é, o seu choro, e a “interpretação” da mãe, isto é, a sua reação para determinados choros. O dicionário, para ir para o mercado, deve trabalhar com a expressão “quer dizer que”. Ou seja, ele deve descrever um choro X e, em seguida, dizer que X quer dizer que Y. Nesse caso, Y é o que o bebê gostaria que viesse a acontecer com a mãe. Eis aí o que a imprensa trouxe por esses dias – um tradutor de choros de bebês. (Folha Online 12/03/2010).
Até aí, tudo bem. Isso é bom para a mãe e bom para o bebê. O erro que pode advir disso não é no campo da puericultura, ao menos não de modo grave, mas sim no campo da filosofia. O “quer dizer que” não deve levar a mãe a pensar que o bebê tem uma linguagem mais ou menos parecida com a dela, elaborada em pensamento, e que ele se expressa em forma de choro por ainda não ter aprendido a verter cada expressão do seu pensamento em uma linguagem natural nossa, no caso, o português. Em outras palavras, a construção do dicionário de relacionamento entre o bebê e a mãe não implica em assumir que o bebê tenha uma linguagem.
Supor que o bebê vem ao mundo capacitado com uma linguagem é imaginar que ele teria uma “linguagem privada”, ou seja, uma linguagem só dele. Ele a expressaria em forma de choro e, então, a mãe deveria se virar para construir seu dicionário de relacionamento com o bebê e, assim, ir ensinando o bebê a substituir seu choro por nova forma de expressão, a linguagem natural, ou seja, o português. Muita gente pensa que é isso que ocorre. O problema dessa hipótese é que ela não pode ser testada. Pois, todos nós adultos, uma vez que aprendemos a linguagem natural, a de nossos pais, não conseguimos de modo algum pronunciar qualquer coisa que seja o choro na sua relação com a suposta linguagem privada, aquela que, segundo tal concepção, teríamos ao nascer.
Assim, quando especialistas dizem que podem elaborar um dicionário que mostra o que o choro quer dizer, eles estão apenas dizendo que podem fazer uma tabela que liga choro a comportamento. Não dizem, de forma alguma, que estão revelando a “linguagem de pensamento” – a linguagem privada ou o mentalês – que um bebê teria e que se expressaria em formas de choro.
O senso comum, no entanto, vai sempre acreditar na possibilidade do bebê ter um “mentalês” que, um dia, será substituído pelo português. Mas não só o senso comum. Também um filósofo dirá isso e, junto com ele, alguns psicólogos. Noam Chomsky é o pensador que acredita na existência do mentalês. Talvez o último. Steve Pinker é um psicólogo famoso, que segue Chomsky, e que produz livros e mais livros divulgando às mães do mundo como que os bebês pensam. Nas mãos dessas pessoas os bebês são mostrados como tendo uma linguagem privada, ou seja, algo mais ou menos com estrutura semântica e sintática. Sendo linguagem o logos, ou seja, a razão, esses bebês de Chomsky e Pinker acabam sendo tomados como seres racionais.
Até aí, a tese tem implicações em epistemologia e psicologia. O passo seguinte é um pouco mais ousado. A história da filosofia deixou para a maioria das pessoas a idéia de que a razão é a característica humana. Menos que uma propriedade, ela se mostra como um elemento da natureza humana ou, já numa linguagem metafisicamente inflacionada, ela seria a essência do homem. Assim, de um simples dicionário de choro de bebê, eis que estamos, de volta, à idéia da metafísica de Platão e Aristóteles. Ora, sempre há alguém ouvindo isso e diz, então, que a razão é algo que produz coisas tão extraordinárias que, enfim, não pode desaparecer do mundo assim, sem mais. Pronto: eis que a razão se liga a algo imortal, a uma anima – a alma. A imortalidade da alma abre as mãos para um Criador perfeito e tudo o mais. Da metafísica à teologia o passo é pequeno. Chomsky, o grande comunista americano, abre as asas para o vôo da religiosidade mundial.
Contei tudo isso ao Pitoko e ele fez uma carinha de quem estaria dizendo algo assim: “ah, não tenho racionalidade nenhuma, Paulo, e você, que tem, se dá bem comigo, não? Isso é o que importa, nosso amor recíproco. Então, se você tem racionalidade e ela lhe dá imortalidade, azar seu – arque com essa responsabilidade. Eu não quero isso para mim. É um fardo muito grande” (Pitoko falou de modo mais simples, ele ainda é novo, eu é que dei esse tom mais acadêmico, digamos). Achei sábia a decisão do Pitoko.
Tinha poucos livros do Chomsky em casa. Hoje, não tenho mais nenhum. Pitoko adora roer um livro e, enfim, não vou dar a ele senão os que não uso. Foi assim que me livrei dos livros do Chomsky.
Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.
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