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Quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

Xuxa está para Sarney como Sasha estará para ____.

 

Sasha é filha da Xuxa. Sasha faz filme com a mamãe. Sasha tem 11 anos. Sasha escreveu no seu twitter a palavra “cena” com “s”. Xuxa ficou brava com os críticos. Xuxa deu a desculpa: a Sasha foi alfabetizada em inglês.

Xuxa fez um dicionário usando “x” em tudo. Sarney era o Presidente da República. Sarney não gostou.  Sarney falou isso publicamente. Xuxa chorou. Xuxa disse que era muito nova e não sabia o que era o certo e o errado. Xuxa tinha 25 anos.

O que você tem aí acima são dois fatos e dois ditados. Os dois fatos ocorreram e o primeiro é recente. Isso acontece nas melhores famílias. Uma menina de 11 anos pode cometer um erro ortográfico – é bem perdoável. Mas o que não pode ocorrer é o ditado desaparecer da escola. O que não pode ocorrer de modo algum é o que vai ocorrer agora: a Unesp (uma universidade estatal!) irá criar, se é que já não criou, uma infinidade de vagas para o curso de pedagogia, tudo em forma de EAD – Ensino a Distância. O orçamento da universidade não cresceu e, então, tirando do que não tem, tal instituição vai formar os professores das aspirantes a Sashas por meio de monitores e do ensino aligeirado.

A USP fez um projeto de EAD para formar professores. Teve de parar. Uma greve de alunos relativamente conscientes a fez parar. A Unesp não, vai em frente. Frente? Não se pode dizer que isso é frente. Isso é vergonhoso, pois é a velha história de sempre, nada de cursos de química ou engenharia para os pobres, e sim o curso de pedagogia. A idéia dos nossos reitores parece ser esta: vamos pegar todos os pobres e dar-lhes diplomas de professores do Ensino Básico. E para que eles não abandonem os ricos, indo para a universidade por 4 anos, vamos mantê-los no trabalho. Com isso, mantemos todos nos seus postos e ao mesmo tempo conseguiremos colocar boas estatísticas para os organismos internacionais. Ou seja, logo teremos uma legião de professores, vindos das “camadas populares”. Será a glória dessa esquerda política que nunca foi de esquerda, pois isso não é política educacional que se apresente, isso é uma forma de populismo barato e, pior, ineficaz. Essa é a política educacional da universidade estatal de São Paulo – será uma política que Serra aprova? Uma coisa é certa, trata-se de uma política que o MEC de Fernando Haddad aprova. É a política (educacional ?) do Lula.

O Brasil é o país da mentira. Tudo começa já com uma mentira: Pedro Álvares Cabral, um português, descobriu o Brasil. A mentira continua agora nas estatísticas: o Brasil está ampliando o número de alfabetizados. No entanto, é fácil derrubar essa conversa fiada. Qualquer um de nós que lida com o ensino (e com a Internet) vê que o erro de Sasha, agora, não é cometido por crianças somente, e sim por adultos – uma boa parte desses adultos já possui o diploma de nível superior.  Não raro, esse diploma é o de pedagogia.

Fernando Haddad, Lula e, agora, a direção da Unesp, estão nessa linha: que os números mintam por nós para que possamos, ao final dos tempos, dizer o que sempre dissemos: “não sabíamos de nada”. Não é a universalização do ensino, é a universalização do “estilo Lula de ser e estar”.

Mas, mentira tem perna curta, dizem todos. Recebi aqui os primeiros dados de uma pesquisa não governamental. Um grupo de professores experientes fez uma análise comparativa entre os erros de pessoas alfabetizadas pelo Mobral (da época) e alunos de cursos de licenciatura de universidades estatais e de renomadas universidades particulares (atualmente). O resultado é de deixar qualquer um de cabelo em pé. O texto do aluno do Mobral, quando considerado alfabetizado oficialmente, contém menos erros ortográficos que o do aluno atual que irá ser professor.

A saída para isso não é a adoção de novos métodos de ensino. O ditado da velha didática cumpriria sua função. Ele cumpre tal função em vários outros países que não se desviaram de seu destino.  A saída para essa situação de analfabetismo funcional que vivemos é trazer os melhores para a profissão de professor. Para tal, a carreira do magistério precisa ser valorizada. Todos dizem isso: sem a carreira atrativa, não se muda a educação brasileira. Ninguém mais consegue dizer outra coisa.

Mas a valorização não se faz simplesmente pelo aumento salarial pela via do “bônus” ou pela via do “tempo de serviço”, e sim pelo aumento salarial substancial acoplado a um sistema voltado para a premiação da capacidade intelectual do professor, avaliada em provas regulares e individuais. O professor do ensino de crianças e jovens no Brasil não pode ganhar de modo tão diferente do professor universitário ou de outras profissões que requisitam educação universitária. Todavia, sua ascensão na carreira, como a do professor universitário (ao menos em princípio), deve correr pelo leito da sua demonstrada competência no domínio dos conteúdos intelectuais aos quais tem o direito, por lei, de ensinar.

A última coisa que podemos fazer para sairmos dessa mentira que nossos dirigentes estão criando, a partir de estatísticas ludibriadoras, é a adoção do EAD na formação de professores. Não temos que ser contra o EAD, mas temos de barrá-lo na forma que está sendo propagandeado e posto em prática, como panacéia para suprir nossa falta de professores. Não devemos fazer  isso apenas em benefício da formação de professores, mas para proteger o próprio EAD. Do modo como estamos caminhando, nosso país não terá bons professores e, pior, em curto prazo veremos o EAD desacreditado. Então, novas estatísticas falsas irão tentar dizer que o fracasso não foi culpa do EAD ou, então, dizer que o fracasso foi não da Unesp ou coisa parecida, mas do EAD.

Caso não fizermos isso, cada novo professor vai ter de aproveitar o barco da Xuxa e, todos os dias, dizer: fomos todos transformados em professores por meio de um EAD que errou o programa, era tudo em chinês, sânscrito e coisas assim, então, perdemos o traquejo com o português. Para Sasha, até que vale. Para os pobres que irão pegar diplomas de faculdades estatais via essa falcatrua que está sendo armada, não valerá. Mais uma vez, os pobres serão enganados. Mais uma vez, tudo dará errado. Até lá, os ideólogos que estão ganhando dinheiro e poder com essa fórmula, junto a reitores e ao governo, já terão usufruído das benesses desse poder e já terão usado o dinheiro.

São Paulo, 26 de agosto de 2009

© Paulo Ghiraldelli Jr. filósofo

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Terça-feira, 18 de Agosto de 2009

O que é um filósofo

L Deutsch - The Philosopher, Paris, 1897O que é um filósofo? Quase todos os mais escolarizados sabem o que é. Todavia, quando a pergunta é dirigida a alguém que estudou filosofia ou que fez o curso de graduação em filosofia ou que é reconhecidamente um filósofo, nem sempre aquele que pergunta obtém uma resposta satisfatória. Não raro, os que estão na empresa da filosofia complicam demais a resposta. Como todo e qualquer campo do saber, quem está nele sabe que detém algum poder – isso nos foi ensinado por Bacon, de um modo, e por Foucault, de outro. Alguns acreditam, então, que se respondem às perguntas que lhe fazem de um modo complicado, podem exercer o poder de maneira ampliada. Afinal, tudo que é misterioso, mesmo no mundo moderno, o mundo que Weber qualificou de desencantado, parece guardar mais poder que aquilo que é exposto claramente.

É claro que, como Aristóteles notou e praticou, pode-se falar de filosofia em diversos níveis e para diversos públicos segundo discursos diferentes. Mas, enfim, isso é desse modo para qualquer assunto.  O que não é impossível de fazer é não conseguir explicar, para alguém com alguma escolarização, o que é ser filósofo, e isso de modo claro, objetivo e até mesmo simples. Aliás, quem não expõe de modo claro o que pensa, não pensa bem – não sabe corretamente o que acredita que sabe.

O filósofo ocidental é aquele tipo de intelectual que está inserido na conversação inaugurada pelos pré-socráticos e, enfim, colocada de um modo durável por Platão. Trata-se da conversa que, depois de Aristóteles, chamamos de metafísica. Metafísica e alguma coisa que começamos a saber o que é quando a comparamos com a física.

A física fala do mundo, das coisas materiais. Sua função, ao menos no início das cosmologias, era o de procurar um princípio (um arkhé, em grego), dado por um elemento material (água, terra, ar e fogo – para os gregos antigos), cujo funcionamento e conduta, uma vez mostrados, diria como todo o mundo se faz e se organiza. A meta-física, como o próprio nome já diz, não se prende ao que é físico, vai além da física (ou aquém, dependendo do ponto de vista), e quer encontrar princípios que regem o mundo em algo não material. Está embutida na metafísica a idéia de que há a aparência e há a realidade essencial de tudo, e que, em geral, tomamos a aparência pelo real e, então, vivemos na ilusão. Assim, o irmos para além da física, ao entrarmos na metafísica, podemos desvendar os mecanismos pelos quais cometemos esse erro, o que nos faz cair na ilusão e não enxergar o real. Eis aí o trabalho da filosofia. Eis aí o que faz um filósofo, em um sentido bem amplo: ele é aquele que acredita que há uma ilusão – um especial tipo de ilusão – que dá um trança-pés na maioria das pessoas, os não-filósofos, e que ele, o filósofo, pode contar a tais pessoas como a estrutura do cosmos coloca a perna na frente de todos, armando o trança-pés. Antes que simplesmente expor o que é o real, o filósofo seria aquele capaz de mostrar o mecanismo pelo qual o real não estaria sendo captado pelo chamado senso comum.

É claro que há filósofos que dizem que toda essa conversa de metafísica é bobagem. São essas pessoas, que se dizem antimetafísicos, também filósofos? Na maioria dos casos, sim! Denunciar as ilusões da filosofia ou da metafísica, pela via cética ou pela via de pensamentos deflacionários – ou descritivos, como os de Donald Davidson – não coloca tais pessoas como quem não sabe o que diz a metafísica, mas, antes, como experts da conversação que veio desde os pré-socráticos e Platão – filósofos, então.

Cada filósofo autêntico é um ingênuo e, não raro, um presunçoso. Ele acredita – e tem de acreditar – que pode dar fim à filosofia, pois vai desvendar de uma vez o mecanismo que estaria dando o trança-pés em todos, ou seja, a armação do cosmos ou do mundo que faz com que o chamado senso comum tome o que é a mera aparência pelo real. Ao mesmo tempo, cada filósofo autêntico é um presunçoso, pois ele continua essa investigação mesmo olhando para trás e vendo que os que investigaram antes a questão não eram tolos – eram grandes filósofos.

Assim, em termos gerais, há dois tipos de filósofos: o metafísico e o deflacionário. Um, infla a filosofia com metafísica, o outro tenta fazer uma descrição do mundo racional, mas de um modo descritivo, querendo mostrar que não é necessário usar da dualidade central da metafísica – aparência e realidade – para tecer uma boa descrição do mundo, da nossa atividade no mundo e tudo o mais.

Esses segundos filósofos poderiam ser os cientistas? Não! Por uma razão simples: ainda que esses filósofos possam evocar algum tipo de empirismo ou pragmatismo, ou mesmo algum tipo de ceticismo, eles não fazem investigação a partir de experimentos e experiências, como os cientistas. Quando falam em experiências, estas são imaginárias, não são possíveis de serem efetivamente feitas em laboratório. São filósofos, sim, pois tentam fazer uma exposição geral do mundo a partir de uma descrição racional, ainda que digam que a exposição racional do mundo que estão fornecendo ou que poderiam oferecer tenha dispensado a presença do célebre trança-pés.

Particularmente, como filósofo, eu sou daqueles que ama ler os colegas metafísicos, embora me sinta mais companheiro dos deflacionários. Amo Platão, é certo, mas fui amigo, mesmo, de Rorty.

Ao longo dos anos em que fui me filiando à empresa da filosofia, procurei criar minha própria definição do que seria a filosofia, e do que eu mesmo seria nisso tudo. Cheguei então à formulação atual: o filósofo é um desbanalizador do banal. O filósofo não busca o que está “por trás”, mas é aquele que fica estupefato com o mais banal, o que está sob a visão e observação de todos. Não é que ele esteja vendo mais que outros, ou de modo mais profundo, ele apenas é capaz de redescrever o que vê (ou que escuta ou que lê) de modo que aquilo que ficou banal se desbanaliza e ganha ou recupera fama, prestígio, adquire ou readquire capacidade de não ser mais banal.

É claro que bons escritores, diretores de cinema, artistas de teatro etc. podem desbanalizar o banal. Mas, o banal do qual eu falo é o banal desbanalizado a partir da conversação e da linguagem da filosofia. Encaixa-se perfeitamente na tradição dos assuntos que se colocaram, de uma maneira ou de outra, na agenda da filosofia ocidental ou que poderiam ter sido colocados. Por isso, não raro, a minha redescrição é sempre a partir de uma já boa redescrição. Não à toa a filosofia, como eu a prático, é uma forma de conversação sobre a cultura. Nessa linha, tento manter a articulação entre filosofia teórica e prática, como os filósofos gregos fizeram, negando o que atualmente a maioria dos professores de filosofia da universidade fazem – eles falam de filosofia e, no entanto, não vivem filosoficamente.  O que os guia na vida são os interesses mundanos, são levados pela vida e não conseguem eles próprios levar a vida. Não são filósofos, de modo algum.

Uma boa definição de filosofia é aquela que não serve apenas para explicar o que o filósofo que a formulou faz. Ela tem de se encaixar como boa explicação da atividade de todos os outros filósofos do passado. Eles, os filósofos do passado, explicaram suas atividades de outro modo, é claro. No entanto, se voltassem à vida e lessem a minha definição de filosofia, seriam capazes de dizer: “é, isso não foge tanto do que eu mesmo fiz”. Isso deve valer, inclusive, para os não deflacionários. A definição tem de ser específica, para caracterizar o que é o filósofo, e ao mesmo tempo ampla, de modo a trazer para o seu interior até os metafísicos – contra os quais podemos, ora ou outra, nos colocar.

Ora, minha definição obedece a esses critérios? Isso é uma das coisas que tenho posto à prova, a cada dia, a cada iniciativa minha na vida filosófica que levo. Sempre convido o meu leitor ou ouvinte a participar dessa aventura comigo. Pois, filosofia é algo da conversação pública, da investigação coletiva. Nenhum filósofo imaginou filosofar sozinho.  O filósofo que pensa fazer isso, não percebeu ainda que não é filósofo.

© 2009-08-18 – “Dia do Filósofo” – São Paulo

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo

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