Portal Brasileiro da Filosofia - Filosofia e Educação!

Portal Brasileiro da Filosofia: 12 anos online


Grandes Filósofos de Todos os Tempos
AdornoDescartesWittgensteinHabermasFregeWeberMarx
DantoFoucaultHeideggerQuineHumeRortySartre
DavidsonHegelJamesDerridaPutnamHorkheimer
SextoMontaigneBenjaminDeweyKantSchopenhauerPopper
Artigos
Gallo na contramão de Deleuze

DeleuzeDeleuze difere de Rorty e Habermas, é certo, mas não pelo que alguns manuais indicam. Na subárea chamada filosofia da educação, esses equívocos sobre o que um autor diz de contraponto a outro é, não raro, um problema não desprezível, pois atrapalha sobremaneira os estudantes. O professor Sílvio Gallo, em uma passagem de seu livro Deleuze e a educação, nos fornece um exemplo desse tipo de problema.

Preocupado demais em achar interlocutores pessoais para Deleuze, Silvio Gallo tentou adivinhar quem Deleuze e Guattari tinham em mente quando disseram que filosofia não era “nem contemplação, nem reflexão e nem comunicação”. Vejamos o trecho:

"Ela [a filosofia] tampouco é comunicação, e aí dirige-se uma crítica a duas figuras emblemáticas da filosofia contemporânea: a Habermas, com sua proposta de uma “razão comunicativa”, e a Rorty e ao neopragmatismo, propositores de uma “conversação democrática”. Porque a comunicação pode visar apenas ao consenso, mas nunca ao conceito; e o conceito, muitas vezes, é mais dissenso que consenso."

Deleuze tem divergências com Habermas e Rorty. Sabemos disso. Suas divergências, não raro, mostram esses seus opositores de forma caricaturesca. Também sabemos disso. Mas a caricatura de Deleuze não chega a induzir o leitor ao equívoco. Não! Ou, ao menos não como Sílvio Gallo que fez inferências apressadas.

Nem a filosofia de Rorty e nem a de Habermas são propositoras de uma “conversação democrática”. O gosto de Habermas e Rorty por “conversação democrática” jamais os fez acreditar ou dizer que suas filosofias tinham tal “conversação” como proposta. Ao contrário, tanto para Rorty quanto para Habermas, a filosofia não tem como garantir qualquer atividade mais fecunda da democracia, uma vez que é a política que, se puder, lida com a democracia. A filosofia, para ambos, acaba podendo se desenvolver em uma sociedade pautada pela comunicação democrática de modo melhor que em uma sociedade pautada por uma comunicação em que impere a fome e a polícia política. Assim, a filosofia pode usufruir, talvez, da conversação democrática, como toda a cultura pode, mas ela não está dirigida para propor aquilo que ela precisaria pressupor para um possível desenvolvimento maior.

A diferença entre Rorty e Habermas é que o primeiro vê qualquer teoria capaz de colaborar com a persuasão das pessoas para virem a gostar da democracia é uma teoria ad hoc. Ou seja, a teoria não fundamenta a democracia e nem está articulada lógica ou metafisicamente à democracia. Ela está “solta” e, talvez, possa oferecer razões pragmáticas que talvez leve alguém a vir a ficar simpático à democracia. O pragmatismo de Rorty é uma filosofia que, entre várias afirmativas que faz, fornece elementos que tentam mostrar que a democracia liberal é boa, e então dá as suas vantagens. Uma delas é até bem próxima do próprio pragmatismo: se o pragmatismo é uma doutrina do perspectivismo, então, a democracia liberal é um bom regime para que o pragmatismo se desenvolva, pois a democracia liberal favorece a pluralidade de opiniões.

Habermas, no entanto, acha que a filosofia tem um papel ainda fundamentador do projeto democrático enquanto este se coloca na agenda iluminista. Não se trata de oferecer uma teoria ad hoc, mas uma teoria filosófica que dá bases para a comunicação democrática e, portanto, para a democracia. Habermas não diz que a filosofia vai propor a “conversação democrática”.  Ele diz que diante de uma frase como “feche a porta”, não estamos somente diante de uma ordem, de algo que manda e que impõe poder, mas antes, estamos diante de uma formulação que só pode ter efeito e, então, talvez, exercer poder, se for entendida intelectualmente. Esse espaço de requisição do entendimento é o que a linguagem exige de per si. Para Habermas, querendo ou não, a linguagem guarda em seu seio a comunicação porque está atrelada ao entendimento intelectivo. Isso a faz base para a comunicação democrática e, por isso, a democracia encontra seu melhor fundamento na filosofia que reconhece esse papel de “guardador de lugar” da razão.

Uma teoria ad hoc vinda de Rorty e uma teoria fundamentadora vinda de Habermas são aquilo que pode ser feito, filosoficamente, para que se possa fazer algo em favor da democracia. Nos dois casos, então, a filosofia deve ser criativa, pois se ela tem algo a ver com a política, é como colaboradora do trabalho de dizer que a política democrática é melhor que outras políticas. Nenhuma dessas duas propostas, a do americano e a do alemão, dizem que a filosofia tem como objetivo propor a “conversação democrática”. Ao contrário, elas se sentem completamente incapazes de propor algo assim. Até porque, nos dois casos, quem pode lidar diretamente com querer ou não “conversação democrática” é a política.

Aliás, se a filosofia é, para Deleuze, “criação de conceitos”, como ele afirma no livro O que é filosofia? (junto com Guattari), então sua diferença para com Rorty seria até bem menor que a diferença de Rorty para com Habermas, ao menos em termos de filosofia, e não de política. Afinal, Rorty vê a filosofia como criação de novos vocabulários capazes de nos dar condição de nos vermos como “versões melhores de nós mesmos” que, então, estariam projetadas nos nossos desejos de construção do futuro. Essa construção de novos vocabulários seria a parte positiva que demandaria, também, uma parte negativa – a terapia rortiana de eliminar velhos vocabulários, aqueles vocabulários que não estariam mais deixando a filosofia ser o que Hegel disse que ela poderia ser, a “apreensão do tempo presente em pensamento”.

Talvez Deleuze tenha algo contra Habermas e Rorty, mas isso quanto ao que ele chamaria – nem sempre corretamente – de neo-humanismo desses filósofos. Mas, essa já é outra conversa. Aqui, vale apenas o alerta para que os estudantes não escorreguem nesses livros com trechos feitos de casca de banana.

© 2010 Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ


Artigos do Blog do Filósofo


Veja o nosso RSS

© 2001-2010 RJHost.com.br
© PBF [novo início em 17/10/07] Editor: Filósofo Paulo Ghiraldelli Jr. E-mail do editor: pgjr23@gmail.com

Acessibilidade

Teclado: Menu Principal » alt+m | Conteúdo » alt+c Controles de Acessibilidade: | A (Normal) | -A (Dininuir) | +A (Aumentar)